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domingo, maio 25, 2008

 

Sobre a Concentração & etc....

Nos últimos meses, alguns jornalistas têm tido a amabilidade de me interrogar acerca da criação das Edições Nelson de Matos , tomando-as como um contraponto (que de modo algum podem ser) ao processo de concentração editorial verificado recentemente no nosso mercado.
Deixo aqui arquivadas as respostas que lhes fui dando em momentos diversos, daí as eventuais contradições.

Alexandra Carita
Enviada em: quarta-feira, 21 de Maio de 2008 17:42
Assunto: para artigo no Jornal Expresso (publicado em 24.05.2008)


Conforme combinado envio algumas perguntas sobre o mercado do livro:

A partir da sua experiência enquanto editor como é que olha para o panorama actual do mercado do livro em Portugal?
[NM] Com alguma perplexidade e preocupação. Este súbito e significativo interesse (para não dizer "assalto") de alguns grupos financeiros (repare que não digo editoriais) pelo nosso pobre mercado do livro, causa-me bastante admiração, sobretudo se comparado com os quase estagnados índices de leitura e de compra de livros que regularmente são publicados. Será que passámos a ser um país com 100.000 leitores para cada livro ? Ou tudo isto não passa de puras operações de especulativas num mercado desprevenido; de operações de compra e venda realizadas em cadeia ?

A concentração do mercado em grandes grupos editoriais tem vantagens? É uma estratégia financeira mais lucrativa? Pode afectar o consumidor (condicionando-lhe as opções de compra, por exemplo)?
Claro que tem sensíveis vantagens para os Grupos; claro que é uma estratégia mais lucrativa para eles; claro que reduz as opções de escolha dos leitores, as opções de publicação para os autores, as opções de trabalho para os técnicos e especialistas do sector (tradutores, revisores, ilustradores, designers, etc.), a capacidade negocial das empresas adjacentes (gráficas, paginadores, distribuidores, pequenas e médias livrarias, etc.), e o mercado de trabalho para os trabalhadores em geral.

As pequenas editoras, como a que acaba de criar, voltadas para um nicho de mercado, poderão estar em risco, ou são a solução para quem quer continuar dentro do mercado do livro?
As pequenas editoras resistirão com maior facilidade, se geridas com cuidado e disciplina, porque evidentemente não terão que enfrentar os mesmos problemas que as grandes. Serão mais adaptáveis às crises e às oscilações do mercado.

Há público assegurado para elas? E margem de manobra para trabalhar com distribuidoras e livreiros?
Não vejo porque não. São elas que permitirão alargar as escolhas dos leitores, oferendo-lhes áreas de edição alternativas à linguagem dos best-sellers. Serão elas que oferecerão a muitos autores o porto seguro no qual gostam de trabalhar.

Quais as suas expectativas em relação às Edições Nelson de Matos?
As minhas expectativas são por enquanto escassas, modestas, cautelosas. Primeiro, mostrar que é possível resistir, se se quiser fazê-lo; depois mostrar que é possível manter um programa de qualidade com bons autores, que se pode até produzir livros de entretenimento sem meter as mãos no lixo.

Serão as «médias» editoras as mais prejudicadas com a criação dos grandes grupos?
Provavelmente. Ficam cercadas. Não são nem uma coisa nem outra. Deixarão de ter acesso fácil à compra dos best-sellers (capacidade que os Grupos lhes retirarão com facilidade) e, por outro lado, terão dificuldade em eliminar custos de estrutura (e outros) que lhes permitam aguentar a concorrência das pequenas editoras. Mas há caminhos para elas. Esperemos que cada uma delas saiba encontrá-los.

Portugal tem público para tantos livros?
Não tem, nem terá. Apesar de algum pequeno crescimento dos índices de leitura e compra de livros verificado nos últimos anos, Portugal não está, como é sabido, a multiplicar a sua população, muito antes pelo contrário. Temos portanto que esperar para ver. Ver a quem os Grupos actuais irão vender o que agora têm estado a comprar. Ver se o seu interesse pela defesa da nossa língua não resultará afinal numa venda da edição portuguesa mais interessante a grupos internacionais. Veremos. A procissão ainda vai no adro da igreja, como diria a tão esquecida sabedoria popular.


Respostas a Sérgio Almeida,

JORNAL DE NOTÍCIAS, 18.04.2008


1 Criou uma editora numa altura em que talvez não fosse esse o cenário mais previsível. Correr riscos, mesmo que calculados, está-lhe no sangue?
Nenhuma construtora me veio convidar para assumir um lugar na sua Direcção - que é que eu havia de fazer ? Sou um profissional da edição com algumas décadas de experiência. Resolvi fazer aquilo de que sou capaz: uma pequena editora artesanal. Era cedo para ficar parado. Aos sessenta e dois anos ainda se está bastante apto. Embora os jovens e actuais gestores de recursos humanos das empresas pensem que não.

2 Embora ainda seja cedo para grandes balanços, esta tem sido uma aposta ganha até ao momento?
Sim, tem corrido bem, foi bem recebida pelos meios de comunicação e pelos autores, foi apoiada pelos Livreiros, teve o entusiasmo dos leitores. Não me posso queixar. Tive já de reimprimir um título por 5 vezes, logo ao fim de um mês, dos outros não tenho exemplares disponíveis, embora isso não signifique que estejam já todos vendidos.

3 A publicação do inédito de José Cardoso Pires foi o “empurrão” ideal para uma editora recém-criada?
Não. A publicação de um inédito de Cardoso Pires foi, em primeiro lugar, um bom pretexto para mostrar o que ainda é possível fazer em termos de trabalho editorial. Em seguida foi o pretexto para homenagear um amigo querido e um grande escritor da nossa língua, de o voltar a trazer para as páginas dos jornais. Depois, foi uma forma de oferecer aos seus leitores uma bela recordação, no ano em que decorrem os 10 anos sobre o seu falecimento.
Os leitores, felizmente, souberam apreciar estas intenções. Em contrapartida puderam ler um texto fascinante.

4 Nestas três décadas e meia de actividade editorial, o mercado sofreu transformações vertiginosas. De todas essas mudanças ocorridas, quais destacaria? A distância crescente entre o editor e o autor, por exemplo?
Talvez destacasse, pelo lado positivo, a progressiva alteração das taxas de leitura e de consumo de livros, o aumento do número de leitores regulares, a democratização do acesso ao livro e à leitura, o aumento do número de bibliotecas escolares e de leitura pública, etc. Foi um esforço muito grande e bem sucedido.
Pelo lado negativo, destacaria o apagamento da figura do editor pela parte dos grandes grupos editoriais entretanto formados. Vão arrepender-se, a prazo. O negócio dos livros não se faz apenas com os best-sellers; é fundamental construir e manter vivo um catálogo estável e consistente. Para isso uma editorial tem forçosamente que ter por trás quem tenha algumas ideias.

5 Onde vê as Edições Nelson de Matos daqui a cinco anos? Ainda como uma “editora artesanal”?
Sim, sem dúvida. Não me vejo de novo a optar por um crescimento acelerado. Vou fazendo uns livros, com gosto, com tempo, com qualidade.

6 Não vê na concentração editorial o ‘papão’ que muitos responsáveis do meio insistem em ver. Esta aposta de grandes grupos no sector dos livros é a prova de que esta não é uma área necessariamente pequena?
Sim, a concentração não é nenhum “papão”. E, proporcionalmente, tem também os seus riscos. Vamos ver de que eficiência são capazes. Porque para eles é esse o problema, o de garantir um grau elevado de eficiência à rotação do capital. Vamos ver o que fazem, o que verdadeiramente conseguem fazer os Grupos. Sobretudo quanto tempo demorarão a vender o que agora compraram. E em que condições de rentabilidade.

7 Ter publicado os “Versículos Satânicos” foi das decisões mais difíceis que tomou, em virtude das ameaças que recebeu? De que outras situações delicadas se recorda?
Houve muitas outras situações que não foram fáceis. A publicação do livro do Dr. Rui Mateus sobre a questão do financiamento dos partidos políticos, a devolução à família Espírito Santo de uma correspondência de Eça de Queiroz que lhes havia sido subtraída, um livro da jornalista Paula Serra sobre os serviços secretos, etc. A vida de um editor tem também os seus riscos, que nunca hesitei em correr, a bem da minha independência, da verdade e da liberdade de editar.

8 Quais os próximas títulos já assegurados pelas edições Nelson de Matos?
Vai sair em breve um pequeno livro de contos de um outro escritor importante, estão a ser escritos um livro de memórias muito interessante e uma grande biografia de uma personalidade pública com uma vida inquestionavelmente rica.

9 Por fim, gostaria que resumisse telegraficamente – numa frase, se possível – a experiência nas editoras pelas quais já passou (Arcádia, Moraes, Dom Quixote e Ambar).

Arcádia e Moraes foram o princípio, o começo, a aprendizagem, o tecer de uma rede de relações imprescindível, o início do convívio com importantes autores portugueses; na Dom Quixote ficou metade da minha vida, algo que não repetirei e que provavelmente jamais se repetirá, a construção de um dos mais importantes catálogos da edição portuguesa, a reunião de um conjunto de autores, nacionais e estrangeiros que jamais haviam sido reunidos em qualquer catálogo; na Ambar quis deixar depositada alguma da experiência anterior, mas a empresa, cheia de pressa e com muita inabilidade, não teve condições para aproveitar o que pretendi transmitir-lhe.

Respostas a Sérgio Almeida

Jornal de Notícias, 25.01.2008

PERGUNTAS

1 Acha que a grande surpresa nesta vaga recente de concentrações é apenas o atraso com que chegou ao nosso país?
[NM] Ao nosso país, já se sabe, as coisas chegam normalmente com algum atraso. Umas mais do que outras. A formação de Grupos Editoriais era algo que se esperava, uma tendência que estava à vista dada a fragilidade da maior parte das empresas do sector, que se vinha desenhando e ensaiando desde há alguns anos. Havia já alguns grupos embrionários, entre empresas nacionais e, outros, já com empresas e grupos internacionais poderosos. Nos últimos tempos, porém, a situação tornou-se mais evidente com o aparecimento de grupos financeiros que, como é conhecido, adquiriram várias editoras.

2 Quais as principais vantagens e desvantagens que associa a esta tendência?
[NM] Face à concentração verificada no retalho (grandes superfícies, Fnacs, grandes redes livreiras, outros grupos em formação nesta área do comércio) era inevitável a concentração dos Editores, tentando encontrar a medida justa de enfrentar essa situação de desigualdade negocial. Devia ter acontecido há mais tempo. Com a demora, a fragilidade de muitos editores acentuou-se irremediavelmente. Note porém que não estou a comentar a forma, as estratégias ou as consequências, das concentrações em curso - isso seria outra conversa, certamente mais demorada. Limito-me a constatar a sua inevitabilidade.

3 Como interpreta a reacção inicial de desagrado adoptada por autores como Lobo Antunes ou Lídia Jorge?
[NM] É uma reacção normal e aceitável. Não creio que eles estivessem a reagir ao processo de concentração em si, mas às formas negativas que ele pode assumir e aos efeitos que essas formas negativas poderão ter sobre o trabalho e os interesses dos autores. Por outro lado, não sei se a posição destes dois escritores pode ser encerrada dentro de um mesmo saco... A concentração, em si, não é negativa, repito. Negativos poderão ser os efeitos de algumas das formas distorcidas que ela pode assumir.

4 Como reagiria se um grupo editorial poderoso manifestasse interesse no seu novo projecto no sector dos livros?
[NM] Ouvi-lo-ia com naturalidade e normalidade - embora não faça parte dos meus objectivos incluir a minha actual empresa em nenhuma das concentrações financeiras existentes.

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